A infertilidade nem sempre começa quando o casal decide engravidar

Infertilidade raramente começa quando você decide ter um filho - dra Mila Cerqueira - Especialista reprodução humana florianopolis

A infertilidade ainda é vista por muitas pessoas como algo que começa quando o casal decide tentar ter um filho. Mas, na prática, nem sempre é assim.

Em muitos casos, alterações que podem impactar a fertilidade já estavam presentes há anos, mesmo sem sintomas claros, sem sinais evidentes e sem qualquer percepção de que algo poderia interferir no futuro reprodutivo.

Quando a dificuldade para engravidar finalmente aparece, o tempo já passou. E, em reprodução humana, o tempo pode ser um fator importante.

Por isso, falar sobre fertilidade não deveria ser um assunto apenas para quem já está tentando engravidar. Fertilidade também é saúde, planejamento e informação.

Por que a infertilidade pode ser silenciosa?

A fertilidade depende de vários fatores funcionando em conjunto. Ovulação, reserva ovariana, qualidade dos óvulos, trompas, útero, saúde hormonal, saúde metabólica e fator masculino fazem parte dessa avaliação.

Muitas alterações podem existir sem causar sintomas importantes no dia a dia. A mulher pode menstruar regularmente e ainda assim ter alguma condição que mereça investigação. O homem pode não apresentar nenhum sintoma e ainda assim ter alterações no espermograma.

Entre os fatores que podem evoluir de forma silenciosa estão:

  • baixa reserva ovariana;
  • endometriose;
  • síndrome dos ovários policísticos;
  • alterações hormonais;
  • resistência à insulina;
  • alterações na tireoide;
  • doenças inflamatórias;
  • obstruções tubárias;
  • varicocele;
  • alterações na quantidade, motilidade ou morfologia dos espermatozoides.

Por isso, esperar apenas o sintoma aparecer pode atrasar o diagnóstico e limitar algumas possibilidades.

Menstruação regular não garante fertilidade preservada

Um dos equívocos mais comuns é acreditar que, se a menstruação está regular, a fertilidade está garantida.

O ciclo menstrual regular é um sinal importante, mas não avalia sozinho toda a saúde reprodutiva. Ele não mostra, por exemplo, como está a reserva ovariana, a qualidade dos óvulos, a condição das trompas ou o fator masculino.

Além disso, algumas condições ginecológicas podem causar poucos sintomas no início ou serem percebidas apenas quando o casal começa a tentar engravidar.

Por isso, avaliação de fertilidade não deve ser vista apenas como uma resposta a um problema. Ela também pode ser uma forma de planejamento.

O tempo importa na fertilidade feminina

A idade é um dos principais fatores associados à fertilidade feminina. Com o passar dos anos, a reserva ovariana tende a diminuir, e a qualidade dos óvulos também pode ser impactada.

Esse processo costuma ficar mais evidente após os 35 anos, mas pode variar de uma mulher para outra. Algumas podem apresentar redução da reserva ovariana mais cedo, especialmente quando há histórico familiar de menopausa precoce, endometriose, cirurgias ovarianas ou outros fatores de risco.

Entender esse cenário antes da tentativa de gravidez pode ajudar a tomar decisões com mais clareza.

O fator masculino também precisa ser investigado

A infertilidade não é um assunto apenas feminino. Em uma parte dos casos, o fator masculino participa da dificuldade para engravidar.

Alterações no espermograma podem acontecer sem dor, sem alteração sexual e sem sinais externos. Por isso, quando se fala em planejamento reprodutivo, é importante considerar o casal.

Investigar apenas a mulher pode atrasar o diagnóstico e prolongar a ansiedade do processo.

Quando avaliar a fertilidade?

A avaliação pode ser indicada quando o casal já está tentando engravidar sem sucesso, mas também pode ser útil antes das tentativas, especialmente quando existe desejo de gravidez futura.

Pode ser importante procurar orientação quando há:

  • mulher acima de 30 anos com desejo de engravidar no futuro;
  • mulher acima de 35 anos;
  • ciclos menstruais irregulares;
  • cólicas intensas ou suspeita de endometriose;
  • histórico de cirurgia ovariana;
  • menopausa precoce na família;
  • síndrome dos ovários policísticos;
  • tratamentos médicos que possam afetar a fertilidade;
  • abortamentos de repetição;
  • tentativa de gravidez sem sucesso;
  • dúvidas sobre preservação da fertilidade ou congelamento de óvulos.

Cada caso deve ser avaliado individualmente.

Planejamento reprodutivo não é pressão

Falar sobre fertilidade antes das tentativas não significa pressionar ninguém a engravidar.

Planejamento reprodutivo é sobre entender o corpo, conhecer riscos, investigar fatores silenciosos e ampliar a capacidade de decisão.

Às vezes, a melhor conduta é apenas acompanhar. Em outros casos, pode ser necessário tratar alguma alteração hormonal, metabólica ou ginecológica. Para algumas mulheres, pode fazer sentido conversar sobre congelamento de óvulos. Para alguns casais, pode ser importante investigar o fator masculino desde o início.

Quanto antes se entende, mais possibilidades podem existir.

Informação muda a forma de decidir

A infertilidade raramente começa no dia em que o casal decide ter um filho. Muitas vezes, ela é resultado de fatores que vinham se desenvolvendo ao longo do tempo.

Por isso, a avaliação da fertilidade deve ser vista como parte do cuidado em saúde, e não apenas como uma etapa para quem já está enfrentando dificuldade.

Se você deseja engravidar no futuro ou quer entender melhor sua saúde reprodutiva, converse com uma equipe especializada. Informação não garante o futuro, mas ajuda a construir escolhas com mais clareza.

Perguntas frequentes

Infertilidade pode existir sem sintomas?

Sim. Algumas causas de infertilidade podem evoluir sem sintomas claros, tanto em mulheres quanto em homens. Por isso, a avaliação médica pode ser importante mesmo quando não há sinais evidentes.

Menstruação regular significa que sou fértil?

Não necessariamente. A menstruação regular é um sinal relevante, mas não garante reserva ovariana adequada, qualidade dos óvulos, trompas saudáveis ou ausência de fator masculino.

Quando um casal deve procurar ajuda para engravidar?

Em geral, recomenda-se procurar avaliação após 12 meses de tentativas sem sucesso quando a mulher tem menos de 35 anos, ou após 6 meses quando tem 35 anos ou mais. Em casos de fatores de risco, a avaliação pode ser feita antes.

O homem também precisa fazer exames?

Sim. O fator masculino pode contribuir para a dificuldade de engravidar e, muitas vezes, não causa sintomas. O espermograma é um dos exames iniciais mais utilizados na avaliação masculina.

Avaliar a fertilidade antes de tentar engravidar faz sentido?

Sim. Para pessoas ou casais que desejam filhos no futuro, a avaliação pode ajudar a identificar fatores de risco, orientar condutas e discutir possibilidades como acompanhamento, tratamento ou preservação da fertilidade.

Este conteúdo tem caráter informativo e não substitui consulta médica.

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